Avançar para o conteúdo

Coleção “Mulheres com asas”

Técnica: óleo sobre papel Canson 300 ou 400 gr
Ano: 2024
Dimensões: 41 x 29,7 cm

Poemas de Carlos Grade

MÓNICA

às vezes passo com coragem
os “bordos da ferida” como se a tinta roxa
fosse capaz de conter a expansão da dor
sempre há tempo para um sonho, uma margem
sempre há tempo para me deixar levar pela cor
de uma paixão que me arrasta até ao desejo
(sou de Grândola, sou do Alentejo)
sempre é possível encontrar a força de um sorriso
no voo da borboleta a dirigir-se até ao alto do riso
gosto de viver, nunca baixo os braços
é longa a caminhada e entre altos e baixos
pinto a vida com e sem saudades
sou mulher positiva perante as dificuldades
e no alto de mim mesma a superar
no mais profundo da minha quietude posso abrir os braços e voar

SARA

quando a primavera se despiu para que maio iniciasse a surpresa
o trabalho do sonho, era a seiva da imaginação, a mais pura vida
então, para chegar ao bosque do sangue, a ternura da natureza
fez gritar no meu peito a borboleta  no silêncio adormecida
o meu corpo não gosta de se dar a conhecer
precisa de amor, de atenção, de tempo, de carinho
um dia o Lúpus me visitou ao entardecer
nos jardins distantes onde começou o eterno caminho
as mãos, as dores, a rigidez, o tudo e o nada
na única cidade construída acima da solidão
perfil de outono no horizonte recortada
inquieta, clandestina no silêncio do coração
Adoro o amarelo, o azul e a lavanda
sou feliz e respeito as minhas limitações
ouço música e faço videoclips com quem anda a desenhar um sorriso para viajar em todas as estações

ELSA

quero em tudo o que sou, onde estou, ser imagem
quieta em água quieta, inquieta em pele inquieta
o meu corpo é um maravilhoso mapa de fé e coragem
uma nova luz, um novo sentido, uma mão aberta
se o meu corpo se alarga e me oferece uma nova Elsa
“se a vida dá limões, aproveito para  fazer limonada”
então eu vou criar roupa plus size marca XLSA
e transformo a borboleta em mulher desejada

FÁTIMA

neste estreito e apertado novo horizonte, eis o jardim
o possível espaço de fazer-te amiga entre silêncios e dores
a decisão de sorrir para a vida e ela sorrir para mim
o discernir entre a cor da pétala ou o perfume das flores
nunca irei a ti “lúpus” pelo vento, de velas desfraldadas
irei antes pelo inimaginável caminho de quem trilha
o destino como um raio da lua, voando sobre as casas
embalando e cantando suavemente o sonho da sua filha

GRAÇA

levo sozinha muito do meu tempo
mas nunca esqueci a melodia
que não paro de sussurrar
a borboleta no rosto é passatempo
e a sensibilidade à luz solar um dia
me dará a alegria de saber caminhar
não foi fácil de ouvir
não foi fácil de aprender
a conhecer o corpo, a gerir
os sintomas, a fadiga, o adormecer
mas não sou um álamo frágil
sacudido pelo vento
sou uma mulher inteira e ágil
desenhando amanhãs no pensamento

 PATRÍCIA

veio de fininho
como se de um mau estar se tratasse
como uma fogueira de rosas a iluminar o caminho
e só a solidão pela noite fora passasse
os sinais fazem-se sentir e chegam as palavras:
as dores, o repúdio pelo sol, o cansaço
a angústia, o medo, a incerteza
apenas trago as mãos acesas para o abraço
à procura de abrigo para a tristeza
(veio de fininho
como uma borboleta que voa sobre as dunas
como a música que morde a minha boca magoada)
nada por acaso acontece
o Lúpus foi a sentença e a esperança
pinto de azul o dia que amanhece
e volta a serenidade, a calma, o mar que em mim avança
aprendi o nome e juntas sonhamos
o barco encontrará o porto, a ave encontrará o ninho
e juntas caminhamos, caminhamos, caminhamos…

ISABEL

E Deus me fez mulher
me criou suavemente
recebo amor e amor dou
cada dia é um desafio a vencer
aprendo a ser tolerante simplesmente
a saber ouvir, a aceitar-me como sou
E Deus me faz mulher
cuido com amor e com amor sou cuidada
subindo a montanha devagar e a pé
cada dia é um novo dia a viver
para saber rescrever a realidade sonhada
porque Deus me fará sempre uma mulher de fé

SOFIA

todo o poema é uma incessante luta de contrários
uma busca do outro, do eu no outro insurreição
permanente da vida contra os limites vários
geografia do corpo amante e amado, rio violento
madrugada, branca rigidez, comoção, alegria
assim como o Lúpus matinal, silencioso, ardente
Sofia mulher presente na ausência fugidia
há sempre uma incerteza, uma dor, um medo
um murmurar do tempo que dentro do corpo se insinua
esse espanto que espreita  o próprio enredo
asas, lagos, rios, florestas de nuvens, a loba nua
e ao aprender a viver com o Lúpus a tarde se comove
como se tocassem os sinos da Senhora da Oliveira quando chove
o Lúpus companheiro é a orografia do corpo no mistério da flora
o corpo amado é um deserto, uma ilha, uma paixão que se adora

HELENA LOBATO

Sou mulher
e um entranhável calor me abriga
quando o meu corpo me golpeia
é um calor que me faz renascer
que me faz voltar à vida plena e ativa
como seara que dá nome a quem semeia
Sou mulher e tenho asas para voar mais além
borboleta que sai do casulo para crescer
e trilhar novos caminhos, outros destinos sem fim
o “lobo” salta e dança num vai e vem
mas eu supero com esta força de querer viver
a vida que me ama e é amada por mim